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Conceição Marques
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EMPRESA ESCOLAR VERSUS CLIENTE: O NOVO MODELO DE GESTÃO COMO PRECURSORA DO BULLYING
segunda-feira, 16 de maio de 2011
Maria da Conceição Marques da Silva*
Manoel Moura dos Santos**
RESUMO
O artigo relata a questão do bullying nas instituições de ensino do país, sinalando como desencadeadora dessa violência silenciosa, o sistema capitalista de governo, que influencia (mesmo que indiretamente) na estrutura operacional da escola, aponta a forma do que ensinar e do como ensinar e consequentemente interfere na formação integral dos alunos. A pesquisa decorre sobre os rumos da educação brasileira, fazendo um paralelo como os interesses eminentes do poder político e da classe social dominante, a partir do período colonial até os dias atuais, focando principalmente a formação da classe discente com o intuito de revelar que as reformas educacionais baseadas nos sistemas de governo e nos interesses econômicos vigentes, não contribuíram necessariamente para a educação qualitativa, mas quantitativa que culminou com a triste realidade do “Fenômeno Bullying”, nas dependências das escolas. O trabalho não tem a pretensão de revelar dados estatísticos mais concisos, para um estudo mais minucioso do problema, porém faz uso dos mesmos, apenas para situar a gravidade crescente, dos atos de “violência silenciosa” focando, de uma forma mais convencional as razões pelo qual esse fenômeno, está e permanece presente nas escolas, causando preocupação para todos os seguimentos da sociedade. Por fim o artigo pontua a emergente necessidade de se resgatar os valores éticos e sociais na escola e na família objetivando, exterminar ou pelo menos minimizar esse fenômeno, antes que seja tarde demais
PALAVRAS CHAVE: Educação. Sistema de Governo. Bullying.
1 Introdução
Esse artigo propõe buscar através da história educacional e governista do Brasil o(s) motivo(s) e dilema(s) que levam as crianças e adolescentes a cometerem atos de violência, “Fenômeno Bullying”, contra seus pares, no recinto escolar. O trabalho de pesquisa inicia-se com um estudo sobre a evolução da educação brasileira, onde é possível observar que o sistema de governo e os interesses eminentes da classe social dominante, sempre decidiram o destino da formação dos indivíduos. O atual sistema de governo gera uma sociedade capitalista, onde as crianças são induzidas (mesmo inconscientemente) a serem indivíduos competitivos onde o “Ter” vale mais que o “Ser”, culminando com o fortalecimento do “fenômeno bullying”, que destrói vidas e desestrutura famílias. Em um segundo momento, apenas a constatação de que o sistema capitalista interfere na estrutura organizacional das escolas onde transforma aluno em cliente, escola em empresa e diretor em gestor. Por fim o artigo relata as causas e os danos desse Fenômeno e faz uma alerta para que aja uma imediata intervenção em seu avanço. Observa-se que as três linhas de pensamento desse artigo: Educação, Sistema de Governo e o Fenômeno Bullying são questões abertas para muitas discussões, percebe-se também que a solução para o problema infelizmente não será imediata. Portanto, a pretensão do artigo está em focar, que o sistema capitalista adotado no país e no mundo globalizado, em muito contribuiu e vem contribuindo para os atos de violência desordenada que ocorre em todos os setores da sociedade e em particular nas instituições de ensino.
2 A escola tradicional e o novo modelo educacional
A educação brasileira tem seu eixo baseado em modismos de épocas, sustentados por interesses ético-cristãos, sociais e políticos com a finalidade de atender interesses e anseios, pré - estabelecidos pelo governo e pela classe dominante. Da escola tradicional ao novo modelo educacional ou “Escola Renovada” a educação brasileira foi se adequando a situações diversas, a fim de suprir as crenças de cada período da história. É possível nesse panorama visualizar três momentos cruciais dessa reforma educacional para atender aos interesses emergentes.
O ensino brasileiro tem origem nos fundamentos da ordem jesuíta: catequese, colonização e escolarização; uma proposta que nasce com fins ideológicos e se torna uma tendência pedagógica de assimilação, repetição e alienação crítica e histórica. (...) (REVISTA GESTÃO EDUCACIONAL, 2010, p.15).
No segundo momento, com a inevitável revolução industrial, e sua visão capitalista, a educação muda de foco e começa a preparar o indivíduo para o mercado de trabalho visando interesses comerciais, como afirma Pablo (1995, p.158): “Políticos, empresários, intelectuais e sindicalistas conservadores não hesitam em transformar qualquer debate sobre educação em um problema de custo”. Nesse longo período da história da educação brasileira as reformas educacionais são constantes, a fim de atenderem interesses emanados do sistema capitalista.
(...) Por mais de três séculos, de 1554 até 1920, a tendência Liberal Tradicional prevaleceu nas escolas brasileiras, ainda que com as suas variáveis: Renovadora, Progressiva, Renovadora não diretiva e Liberal Tecnicista. Na segunda metade do século XX, algumas escolas começaram a adotar Tendências Humanistas Modernas ou Pedagogia Nova. Surgem nesta fase nova variáveis como a Pedagogia Libertária, Pedagogia Libertadora e Pedagogia da Crítica social dos conteúdos. Uma análise genérica destes dois eixos pedagógicos, que normatiza conduta, inteligência e sentimento, leva a educação brasileira a dois extremos. Num primeiro momento a preocupação era formação moral do aluno e todo o saber estava concentrado no professor que o disponibilizava por meio de métodos e conteúdos rígidos, sem a participação e a reflexão dos alunos e com um sistema de avaliação baseado em resultados mensuráveis e recompensatórios. (...) (REVISTA GESTÃO EDUCACIONAL, 2010, p.15)
Nessa escola tradicional, os alunos não passavam de um mero espectador e depositário ambulante de informações (úteis e inúteis), que ficavam atentos e atônicos, a espera do um saber estático, monótono de cima para baixo, tendo como direito; o ouvir e o copiar e como dever supremo; o aprender sem argumentar. O professor por sua vez era o objeto de transmissão do saber absoluto e sobre sua fala não cabia argumentação nem pairava dúvidas; o único e irrevogável detentor do conhecimento. A esse respeito, Alonso (2003) afirma que
Os fundamentos psicopedagógicos desse modelo podem ser assim definidos: aprender é adquirir conhecimentos, de fora para dentro. Para tanto, o professor deve ser um bom transmissor, deve dominar o conteúdo da matéria; a avaliação consiste na verificação de quanto o aluno aprendeu quantidade de noções (conhecimento); o aluno tem atitude passiva diante do conhecimento; o professor é o transmissor; valores e atitudes não constituem parte de suas intenções de ensino, espera-se que aconteçam por decorrência. (ALONSO, 2003, p. 26)
Por fim, e não menos importante, “(...) a escola migra para a Pedagogia Humanística que exclui o ‘magistrocentrismo’ introduz aspectos biológicos e cognitivos no processo da aprendizagem, dá poder ao aluno para que ele defina atividades e conteúdos e a avaliação, quando aplicada é qualitativa e conceitual”. (REVISTA GESTÃO, 2010, p.15).
Essa mudança se dá com a descoberta da tecnologia ou “revolução tecnológica”, e “marca o fim de uma era, a industrial, dita também modernidade”. Ela faz com que a sociedade modifique sua forma de pensar e de agir, não fique estagnada esperando por um conhecimento pronto e acabado, mas que o busque incessantemente. Alonso (2009), enfatiza que essas “transformações decorrentes do desenvolvimento provocam alterações nos modos de viver, na interação social, no trabalho, enfim, em todos os aspectos da vida humana” e pontua algumas características dessa sociedade totalmente diversa, ao afirmar que;
· Não existem verdades absolutas, tudo é provisório, gerando incerteza;
· O ambiente é instável, as situações e os problemas que serão enfrentados são imprevisíveis e as soluções terão de ser encontradas rapidamente pelas pessoas: portanto, de nada valem as receitas do passado, as fórmulas existentes;
· A competitividade é uma marca dessa sociedade: a disputa é muito grande, vence o melhor, o mais preparado, o mais ágil, o mais criativo;
· Não basta ‘saber’ – o conhecimento no abstrato -, é necessário que ele esteja atrelado ao ‘fazer’, ou seja, o conhecimento só é importante se tiver utilidade e levar ao desenvolvimento de habilidades que permitam resolver os problemas concretos;
· As informações estão em toda parte e são acessíveis a todos; a escola é apenas um dos locais onde se aprende, se adquirem informações; logo, é necessário rever a sua função, redefinir o seu trabalho considerando essa nova realidade social;
· O trabalho em equipe é importante, é fortalecedor em todos os níveis; deve, pois, ser aprendido e incentivado;
· A educação é um trabalho cada vez mais complexo que envolve toda a sociedade; portanto é impossível imaginar a escola trabalhando sozinha, isolada. (ALONSO, 2009, p. 27-28)
Nesse novo contexto da sociedade, a escola se vê obrigada a repensar toda a sua estrutura administrativa e pedagógica a fim de atender os novos interesses. Observa-se que o caminho para se atingir as necessidades eminentes não são tão simples como se apresenta, principalmente em relação à docência, que terá de adequar o mais rápido possível. Nesse sentido, observa-se que,
o estatuto do saber é marcado pela dinâmica do efêmero, pela interatividade, pela realidade virtual, pelo mundo digital. Como compreender esta realidade? Como contemplar na universidade a formação desse ‘novo’ trabalhador? Quais os conteúdos importantes para essa nova formação? Como assegurar a democratização do acesso e permanência de todos na escola? São questões que se fazem presentes perante a realidade do mundo globalizado.
A sociedade do futuro exige processos rápidos de mudança, numa velocidade nunca vista na história da humanidade. Nessa perspectiva, a informação em processo de conhecimento exige que se inove a formação profissional.
Assim, os sistemas de aprendizagem e particularmente a escola devem ser reinventados, passando por uma completa reconceitualização. (CAMPOS, 2010, p.153-154).
“Em outras palavras, a educação terá de orientar-se para a formação de pessoas (educadores e alunos) conscientes e críticas, que participem ativamente do social; portanto pessoas capazes de definir as próprias necessidades de aprendizagem e conhecimentos. Nessa sociedade. Segundo Muller (2006) “o objetivo primordial é habilitar os jovens a chegarem ao mercado de trabalho com as habilidades técnicas necessárias para encontrar o melhor emprego: um acordo entre o sistema educacional e o sistema econômico.
Nessa nova fase, o saber não está estagnado ao simples fato de ler, escrever, decorar e aplicar, mas se volta para uma educação mais aberta, aonde a escola vai “além dos muros” formando cidadãos mais participativos e inseridos na sociedade em que vive. Pode-se verificar essa nova função da escola nos cinco tópicos citados por Alonso (2007) a seguir:
· Formar o cidadão, participante, ativo, consciente do social;
· formar o ‘ser humanizado’, o seu lado cognitivo, social e moral, capaz de conviver com a diversidade (em todos os sentidos);
· propiciar o desenvolvimento de habilidades cognitivas para pesquisar, escolher, selecionar informações, criar, desenvolver idéias próprias, participar etc.;
· propiciar o desenvolvimento de capacidades, habilidades e atitudes, oferecendo ambiente de aprendizagem e oportunidades de vivência;
· Preparar o aluno para ingressar no mundo do trabalho, propiciando o desenvolvimento de habilidades gerais, de competências amplas, compatíveis como a versatilidade, capacidade de ajustar-se a novas situações de trabalho. (ALONSO 2007 p.33)
Portanto observa-se que o aluno é co-autor de sua formação; questiona e participa diretamente de seu interesse e aprendizado, interagem com o seu meio, argumenta buscando soluções para seu modo de ver e viver sua realidade. Sendo, pois, o aluno dono do seu saber, e o professor um parceiro do saber, um condutor de ideias, um informante, um contribuinte na formação integral do educando. Para Alonso (2007) o papel do professor terá que ser revisto, ou seja:
Deixa de ser o simples transmissor e repassador de um conhecimento já produzido para tornar-se o mediador do conhecimento, o mobilizador de energias, aquele que investiga e aprende junto com os alunos, descobre e favorece o desenvolvimento de talentos, instiga a busca e a descoberta. (ALONSO, 2007, p. 33)
Embora sejam modelos largamente distintos no modo de ver e educar o ser humano, deve-se entender que, pela ótica da evolução histórica, que a educação apenas se adéqua aos interesses eminentes como afirma Paro, (2001 p.21) “educação é, pois, atualização histórica de cada indivíduo e, o educador é o mediador que serve de guia para esse mundo praticamente infinito da criação do mundo”.
3 O que pressupõe o conceito de gestão: (diretor/gestor, escola/empresa, aluno/ cliente)?
Segundo o Mini Dicionário Aurélio, (2001). Gestão é o ato ou efeito de gerir e a palavra direção é a arte ou efeito de dirigir. No ramo educacional verifica-se a utilização dessas duas nomenclaturas até os dias atuais. Todavia a palavra diretor foi mais utilizada no século passado quando a escola era comparada a uma fábrica/empresa, onde a produção e a lucratividade estavam baseadas nos princípios da administração de Taylor e Fayol, a seguir:
Desde os primeiros estudos realizados por Taylor e Fayol até o presente, surgiram diversas concepções de organizações, bem como suas respectivas abordagens para lidar com vários aspectos relacionados com a gestão, tais como: informação, pessoas, processos, produtos, planejamentos, interações com o meio externo, dentre outros. Todos os diferentes conceitos apresentaram reflexos significativos na forma de imaginar e organizar o trabalho escolar.
Na década de 1960, eram freqüentes metáforas e comparações da escola com a fábrica, sobretudo entre aqueles que apoiavam modelos positivistas e tecnológicos de organização e administração escolar. A linguagem refletia tal tendência, na medida em que termos referentes a conceitos e práticas normalmente utilizados na indústria, como direção, por objetivos, administração científica etc., passaram a ser habituais nos tratados de pedagogia e nos programas de formação em administração escolar. (THOMAZ, 2007 p.39):
Com as constantes mudanças no setor educacional dentre elas a descentralização do poder e a valorização do ser humano não só o diretor, mas todos que compõe a escola estão, (pelo menos aparentemente) trabalhando em linha horizontal para atingirem um determinado objetivo antes planejado, diferentemente de outros tempos onde o diretor detinha todo o poder de decisões, trabalhando assim numa linha vertical onde reinava o famoso dito popular “manda quem pode obedece quem tem juízo”.
Tempos diferentes nomes diferentes, mas as verdadeiras mudanças, nas organizações educacionais ainda estão longe de se tornarem realidades já que elas estão muito mais no papel do que no dia-a-dia da escola, o que se observa é pequenos ajustes que segundo Vieira, (2007, p. 40) estão “abrindo possibilidades para um reconhecimento mais amplo de suas capacidades de fazer e pensar, mesmo representando uma forma sofisticada de atingir os antigos interesses econômicos – a obtenção de lucros”. O autor ainda comenta sobre a aparente evolução da educação quando diz:
Apesar dessa aparente evolução, podemos perceber uma grande heterogeneidade nas concepções adotadas pelas próprias empresas, (...). O mesmo acontece na escola, pois a grande maioria das instituições ainda está fortemente impregnada de ações e concepções do racionalismo científico. As aulas de 50 minutos, o pensar e o fazer dissociados, professores e coordenação/direção não compartilhando os mesmos objetivos, as salas com carteiras enfileiradas, a concepção de disciplina com classes em total silêncio, as relações de troca e o individualismo entre professores, ou seja, a estrutura organizacional da escola ainda não mudou, ou melhor, mudou muito pouco, na tentativa de superar seu passado de reprodução acrítica das relações socioeconômicas existentes. (VIEIRA, 2007 p. 40-41)
Neste caso, as mudanças ainda que lentas, estão acontecendo e aos poucos o diretor que administra uma escola/empresa distante das questões pedagógicas, passa a ser chamado de gestor na instituição/prestadora de serviços. Embora a palavra gestor esteja mais em voga pelos novos paradigmas da educação, a figura do diretor ainda está enraizada no sistema que continua capitalista e autoritário. Pelo que se observa, o setor educacional necessita tanto do diretor-administrador como do gestor, como enfatiza Gilda Lück, (2005) “administradores trabalham com processos fechados e gestores lideram comportamentos e ações, portanto, uma instituição precisa dos dois, mas raramente observamos uma pessoa que tenha o perfil com características de ambos”, e assim ela define a diferença entre os dois:
Poderíamos afirmar então que o administrador compete alimentar os processos e faz com que caminhem em uma direção preestabelecida. Procuram atingir os resultados esperados pelas pessoas que a eles confiaram à tarefa de administrar. Já os gestores compreendem os cenários nos quais estão inseridos, enxergam com os olhos da mente e respeitam a visão do futuro como uma ciência, logo, consegue projetar ações e resultados de maneira a favorecer o empreendimento ao qual estão ligados. Um planeja estrategicamente, em oposição ao outro, que planeja taticamente. (REVISTA GESTÃO EDUCACIONAL, 2005, p.9).
E a escola é de fato uma empresa? Quando se compara as redes de ensino, públicas e privadas, observa-se que embora elas tenham os mesmos objetivos, o de transmitir conhecimentos (horizontal), elas diferem em sua estrutura funcional. Nas escolas públicas o foco, aparentemente, é o setor didático-pedagógico. Já na escola privada além desse foco, ela precisa administrar outros departamentos inerentes a uma empresa, de tal forma que o setor privado necessita de um dirigente para dirigir e direcionar os empreendimentos e de gerentes para gerenciar tantos quantos departamentos ela possua, como afirma Myrtes Alonso, (2007p. 26): Administrativo e pedagógico estão separados, independentes, constituindo níveis de ação e de autoridade diferentes.
A partir desse pressuposto, e buscando no Dicionário Aurélio, (2001) entende-se que o termo escola é “um estabelecimento público ou privado onde se ministra o ensino coletivo”, enquanto que empresa é “uma organização econômica destinada à produção ou venda de mercadoria ou serviços, tendo em geral como objetivo o lucro”. Com essa definição pode-se chegar a uma conclusão simplificada que, a rede pública é tão somente uma escola e que a rede privada é uma escola-empresa, podendo seguir formatos diferentes, como as filantrópicas, e as cooperativas, mas que na maioria das vezes, visam o lucro.
Para fechar esse ciclo de estudo qual seria a relação entre escola/empresa e aluno/cliente? Partindo do que já foi comentado, os alunos pertenceriam à escola pública e os clientes a escola privada (escola-empresa). Mas as coisas não são tão simples assim, o emprego de uma palavra pode trazer danos quando mal empregada como esclarece Góis (2010), “aluno não é cliente, aluno é aluno. Quem é cliente é o pai do aluno”. Observa-se que sua afirmação está pautada na mais pura definição da palavra, que diz: “aluno - Aquele que recebe instrução e/ou educação de mestre(s), em estabelecimento de ensino ou particularmente”. Onde se pode ver também: “Cliente - Aquele que compra; freguês”. O autor ainda frisa “está convencido que uma das confusões trágicas das escolas na década da hiper competitividade, é confundir aluno com cliente” e dá várias razões para entender a diferença entre uma palavra e a outra, como pode ser analisada a seguir:
1. Aluno você disciplina, - cliente, não. Há professores que não querem disciplinar com amor e limites, porque temem ofender ao ‘cliente-aluno’;
2. Um aluno faz transgressões, - um cliente faz objeções. Transgressões você corrige, objeções você contorna com empatia;
3. O cliente quando não tem razão, tem suas razões, - já o aluno tem como primeira e última razão se educar e, quando quer justificar que não estudou, não tem nem razão;
4. Aluno você cobra resultados, - cliente você se cobra porque não conseguiu que ele comprasse de você;
5. Cliente você deslumbra com um fantástico atendimento sedutor e, então, ele decide se vai ou não fazer negócios com você, - aluno você deslumbra com uma fantástica aula sedutora, mas não compete a ele decidir se vai ou não fazer a pesquisa que você pediu e nem se fará ou não a prova que você marcou a data;
6. Cliente você diagnostica necessidades e problemas e vai a fundo para descobrir as razões subjacentes de compra, - já um professor que tem cinqüenta alunos numa classe e um total de dois mil no colégio onde ensina, não tem tempo para diagnosticar os motivos ocultos, todos específicos e muito pessoais, que bloqueiam seus discípulos para estudar e passar de ano;
7. No mundo dos negócios você tem que adaptar seus argumentos persuasivos segundo o perfil de cada cliente, - já na escola convencional um professor quase sempre não tem como adaptar sua aula ou táticas educacionais segundo o perfil das centenas de alunos que têm pela frente;
8. Uma das falhas do marketing é você oferecer ao mercado o que você quer que ele queira esquecendo que o importante é você descobrir o que ele quer para depois, ofertar, - já para um aluno você tem é que oferecer mesmo o que você quer que ele queira, pois ele nem sempre tem maturidade para saber o que quer. Se você fizer pesquisa para saber o que alguns alunos querem, pode até ser que alguém responda como opção “bem, eu gostaria que o professor morresse e que a gente o homenageasse com uma semana parado”;
9. Para um cliente o segredo é você falar pouco e ouvir muito, - para um aluno você precisa falar muito e ouvir também muito;
10. Cliente você precisa fidelizar e fazer marketing de relacionamento, já um professor que tenha dois mil alunos também precisa fidelizá-los para agregar valor a ele e à escola, mas não tem tempo e nem motivação para isso, já que a maioria se percebe como alguém que ganha para dar aulas e não para atividades extraclasses ou para formar cidadãos e educar para a vida;
11. Um cliente você cria vínculos de relacionamento, um aluno também. Mas as comparações param por aí. Quem é cliente, então, é o pai do aluno, pois é ele quem paga a conta. É com ele que você precisa fazer reuniões sedutoras. É para ele que você deve dar a ficha de acompanhamento do filho. É para ele que você mostra os pontos fortes e fracos de seu estudante e discutem juntas, estratégias de crescimento e superação do baixinho. É para ele que você deve enfatizar a importância de os pais fazerem junto às lições de casa, sempre que possível, ou cobrar mais horas de estudos do que em baladas e videogames. É o pai que deveria ter condições de julgar se um professor é ótimo ou não, já o aluno nem sempre. Não se deixe enganar. Saber a diferença entre professor-educador, pai-cliente e aluno - educando pode ser o resultado de sua escola continuar viva ou não nesta Era do Desarranjo e dos Modismos Educacionais. (PORTALMAURICIOGOIS. COM. BR)
Na visão de Muller (2006) os pais também não são clientes, discordando assim
de Maurício Góis, que é categórico nessa afirmação. Para ele “os pais não são clientes da escola, e não deve ser papel deles decidir o que é ensinado os seus filhos”.
A missão da escola é a de transmitir os valores básicos da cultura na qual está inserida, da civilização e da democracia, não podendo ser objeto de negociação com os pais. Os pais não podem alegar o direto de controlar a escola, mas tampouco isto significa que devam ser excluídos do processo educacional. Ao contrário, devem ser colaboradores, recebendo o máximo de informação a respeito e sendo consultados através de seus representantes sempre que necessário. (MULLER, 2006, p. 78)
Enfim, poder-se-ia chegar à conclusão que, nem o pai nem o aluno são clientes. Que a escola é uma empresa prestadora de serviços, (pelo menos no que se refere ao seguimento privado). E que o diretor poderia ser gestor desde que tivesse as habilidades de administrador e líder simultaneamente.
4 O bullying nas instituições de ensino
“Qualquer proposta educacional deve ser organizada em torno de dois elementos centrais: a instrução e a educação”. (MULLER, 2006, P. 74).
Em uma sociedade capitalista onde as crianças são induzidas (mesmo inconscientemente) a serem indivíduos competitivos observa-se que esse sistema favorece demasiadamente para o fortalecimento desse fenômeno.
Para que se entenda a problemática do bullying no recinto escolar, é importante que se observe inicialmente que esse fenômeno não é uma exclusividade dessas instituições nem tão pouco é um assunto novo, que surge com a modernidade. O bullying são comportamentos desajustados que podem acontecer em qualquer setor da sociedade onde exista a figura do agressor da vítima, e do telespectador. A seguir podem-se observar algumas definições sobre o fenômeno, feitas por especialistas no assunto:
“O termo bullying descreve uma ampla variedade de comportamentos que podem ter impacto sobre a propriedade, o corpo, os sentimentos, os relacionamentos, a reputação e o status social de uma pessoa. É uma forma de comportamento agressivo e direto que é intencional, doloroso e persistente (repetido)”. (BEANE, 2009, p. 18).
Para Cleo Fante (precursora do bullying escolar no Brasil) “o bullying é um desejo consciente e deliberado de maltratar outra pessoa e colocá-la sob tensão”. Enquanto que para Gabriel Chalita “o bullying é a negação da amizade, do cuidado, do respeito”. (CALHAU, 2009, p.6-8).
De origem inglesa a palavra bullying ainda não tem tradução no Brasil. Pode-se verificar através do Dicionário Mini Collins (1994), que a palavra bully está relacionada à: “indivíduo valentão, tirano, mandão, brigão”. Enquanto que a palavra bullying corresponde a um conjunto de atitudes de violência física e/ou psicológica, de caráter intencional e repetitivo, praticado por um bully (agressor) contra uma ou mais vítimas que se encontram impossibilitadas de se defender.
“O Bullying pode, ainda, ser conhecido, segundo Calhau (2009, p. 6) “com outros nomes tais como: assédio moral, mobbing (Noruega e Dinamarca), mobbning (Suécia e Finlândia), Harassment (EUA), acoso (Espanha) entre outras denominações”.
A Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência (ABRAPIA), também citado por Calhau (2009, p. 6) “afirma que as ações que podem estar nele presente são: colocar apelido, ofender, zoar, gozar, encarnar, sacanear, humilhar, fazer sofrer, discriminar, excluir, isolar, dominar, agredir, bater, chutar, empurrar, ferir, roubar e quebrar pertences”.
Foi a partir do registro de ocorrência de suicídios entre jovens na década de 70 na Escandinávia, que surgiu a primeira pesquisa sobre o assunto como pode ser constatado a seguir:
O bullying é um fenômeno tão antigo quanto à própria instituição denominada escola. No entanto só passou a ser objeto de estudo científico no início dos anos 70. Tudo começou na Suécia, onde grande parte da sociedade demonstrou preocupação com a violência entre estudantes e suas conseqüências no âmbito escolar. Em pouco tempo, a mesma onda de interesse contagiou todos os demais países escandinavos.
Na Noruega, o bullying foi, durante muitos anos, motivo de apreensão entre pais e professores que se utilizavam dos meios de comunicação para expressar seus temores e angústias sobre os acontecimentos. Mesmo assim, as autoridades educacionais daquele país não se pronunciavam de forma oficial e efetiva diante dos casos ocorridos no ambiente escolar.
No final de 1982, um acontecimento dramático começou a reescrever a história do bullying naquele país: três crianças, com idade entre 1 e 14 anos, haviam se suicidado no norte da Noruega. As investigações do caso apontaram, como principal motivação da tragédia, as situações de maus-tratos a que tais jovens foram submetidos por colegas de escola.
Dan Olweus, pesquisador da universidade de Berger – Noruega (1978 a 1993) iniciou nessa época um estudo que reuniu aproximadamente 84 mil estudantes, quase 400 professores e cerca de mil pais de alunos. Todas as séries foram observadas, o que corresponderia, atualmente no Brasil, as representantes desde o primeiro ano do ensino fundamental até o último ano do ensino médio. O objetivo principal de Olweus era avaliar as taxas de ocorrência e as formas pelas quais o bullying se apresentava na vida escolar das crianças e dos adolescentes de seu país. (...) O estudo constatou que um em cada sete alunos encontrava-se envolvido em casos de bullying, tanto no papel de vítima como no de agressor. O sucesso de tal iniciativa foi tão grande que desencadeou, de forma imediata, a promoção de campanhas antibullying em outros países, entre eles a Inglaterra, o Canadá e Portugal.
Os estudos de Olweus deram origem a um programa de intervenção antibullying, que teve como tônica os seguintes objetivos:
· Aumentar a conscientização sobre o problema para desfazer mitos e ideias erradas sobre o bullying.
· Promover apoio e proteção às vítimas contra esse tipo de violência escolar.
O próprio Olweus destacou que as condutas bullying estão presentes, com relevância similar ou até superior ao que ocorre na Noruega, em diversos outros países, tais como Suécia, Finlândia, Inglaterra, Estados Unidos, Holanda, Japão, Irlanda, Espanha e Austrália. (SILVA, 2010, p. 112)
Para levantar estatisticamente esses dados, o professor Dan se utilizou de questionários que foram distribuídos com os alunos, com o intuito inicial de mapear o fenômeno conforme citação abaixo:
Nos estudos noruegueses utilizou-se um questionário proposto por Olweus, consistindo de um total de 25 questões com respostas de múltipla escolha, onde se verificava a freqüência, tipos de agressões, locais de maior risco, tipos de agressores e percepções individuais quanto ao número de agressores (Olweus, 1993a). Este instrumento destinava-se a apurar as situações de vitimização/agressão segundo o ponto de vista da própria criança. Ele foi adaptado e utilizado em diversos estudos, em vários países, inclusive no Brasil, pela ABRAPIA, possibilitando assim, o estabelecimento de comparações interculturais. (PROJETO BULLYING, 2004, WWW.SCRIBD.COM)
Esse fenômeno surge de diversas formas e apresenta tipos diferentes de vítimas e de agressores. O bullying (assédio moral) é um problema mundial que, não está presente apenas nas instituições de ensino, (pública ou privada, rural ou urbana), mas em vários seguimentos da sociedade como: no trabalho, nas instituições militares e religiosas, nos presídios e em tantos outros seguimentos da sociedade. A esse respeito, Silva (2010) afirma que,
o bullying não pode mais ser tratado como um fenômeno exclusivo da área educacional. Atualmente ele já é definido como um problema de saúde pública e, por isso mesmo, deve entrar na pauta de todos os profissionais que atuam na área médica, psicológica e assistencial de forma mais abrangente. A falta de conhecimento sobre a existência, o funcionamento e as consequências do bullying propiciam o aumento desordenado no número e na gravidade de novos casos, e nos expõe a situações trágicas isoladas ou coletivas que poderiam ser evitadas. Temos que ter em mente que é na aurora de nossa vida que devemos aprender a não tolerar qualquer tipo de violência, de preconceito e de desrespeito ao próximo. (SILVA, 2010, p. 14)
Como pode se observar, o fenômeno bullying necessita da atenção especial das instituições privadas e governamentais no sentido de inibir o avanço dessa, “Eva daninha”, que destrói as crianças e adolescentes e quando não produzem “jovens que se tornarão adultos violadores das regras sociais básicas para a boa convivência”. (SILVA, 2010, p. 113)
Depois do estudo inicial do professor Dan, uma infinidade de casos de bullying foram diagnosticados onde, lamentavelmente alguns tantos tiveram finais trágicos como descreve Silva (2010)
Um dos casos mais emblemáticos ocorreu nos Estados Unidos , em 1999, no Colégio Columbine High School, em Dever, Colorado, quando se registrou um assassinato em série muito divulgado pela mídia onde “os estudantes Eric Harris de 18 anos e Dylan Klebold, de 17 anos, assassinaram 12 estudantes e um professor. Deixaram mais de vinte pessoas feridas e se suicidaram em seguida, motivados pela exclusão escolar que os dois teriam sofrido durante muito tempo. (SILVA, 2010, p. 20)
No Brasil, essa violência no recinto escolar também é preocupantes, vários casos são registrados de agressão e até de suicídio; não são incomuns casos de alunos que são flagrados dentro de escolas com armas de fogo, como afirma Calhau (2009) a seguir:
Em 2003, em Taiúva (SP), um ex-aluno voltou à escola e atirou em seis alunos e numa professora, que sobreviveram ao ataque. Era ex-obeso e vítima de bullying, e após o atentado, cometeu suicídio. Em 2004, em remanso (BA), um adolescente matou dois e feriu três, após sofrer humilhações (era também vítima de bullying). Em 2008, um adolescente de 17 anos no Rio de Janeiro morreu depois de ser espancado na escola, por conta de um corte de cabelo. Os alunos tinham por ‘brincadeira’ dar socos em colegas no caso de novo corte de cabelo. Como a vítima não gostou e reagiu; mais de dez alunos o agrediram e ele morreu quatro dias depois, tendo como causa da morte, contusão no crânio. (CALHAU, 2009, p.4)
Segundo Silva (2009) no Brasil, “as pesquisas e a atenção voltadas ao tema ainda se dão de forma incipiente. A ABRAPIA se dedica, a estudar pesquisar e divulgar o fenômeno desde 2001”. “No período compreendido entre novembro e dezembro de 2002 e março de 2003, ela realizou uma pesquisa por meio de questionários distribuídos a alunos de 5ª a 8ª séries de 11 escolas (nove públicas e duas particulares), no estado do Rio de Janeiro”. Os resultados apontam alguns dados bastantes significativos, onde se pode verificar que:
· Dos 5.482 alunos participantes, 40,5% (2.217) admitiram ter tido algum tipo de envolvimento direto na prática do bullying, seja como alvo (vítima), seja como autor (agressor).
· Houve um pequeno predomínio do sexo masculino (50,5%) sobre o sexo feminino (49,5%) na participação ativa das condutas de bullying.
· As agressões ocorrem principalmente na própria sala de aula (60,2%), durante o recreio (16,1%) e no portão das escolas (15,9%)
· Em torno de 50% dos alvos (vítimas) admitem que não relate o fato aos professores, tampouco aos pais. (SILVA, 2009, p. 113)
Para identificar as condutas de bullying e diferenciá-las de outras formas de violência e das brincadeiras próprias da idade, Calhau (2009, p.7) apresenta alguns critérios básicos estabelecidos pelo Professor e pesquisador, Dan Olweus: “ações repetitivas contra a mesma vítima num período prolongado de um tempo; desequilíbrio de poder, o que dificulta a defesa da vítima e ausência de motivos que justifiquem o ataque”.
O bullying divide-se em duas categorias: a primeira no bullying direto que é a forma mais comum entre os agressores (bullies) masculinos, e o bullying indireto, também conhecido como agressão social, é a forma mais comum em bullies do sexo feminino e crianças pequenas, e é caracterizada por forçar a vítima ao isolamento social.
Para Alan L. Beane, Ph. D. e especialista em bullying, o fenômeno classifica-se em: físicos, verbais, sociais e relacionais. A seguir, o autor apresenta alguns comportamentos característicos dessas formas de bullying.
Bullying Físico: •Bater, dar tapas, cotoveladas e empurrões com os ombros. • Empurrar, forçar com o corpo, colocar o pé na frente. • Chutar. • Tomar, roubar, danificar ou desfigurar pertences. • Restringir. • Beliscar. • Colocar a cabeça da outra criança no vaso sanitário. • Enfiar outra criança no armário. • Atacar com comida, cuspe, e assim por diante. • Ameaças e linguagem corporal intimidadora.
Bullying Verbal: • Apelidos ofensivos. • Comentários insultuosos e humilhantes. •Provocações repetidas. • Comentários racistas e assédios. • Ameaças e intimidações. • Cochichar sobre a criança pelas costas.
Bullying social e relacional: • Destruir e manipular relacionamentos (Por exemplo, jogando melhores amigos um contra o outro). • Destruir reputações (fofocar, espalhar rumores, maliciosos e cruéis e mentir sobre outras crianças). • Excluir o indivíduo de um grupo (rejeição social, isolamento). • Constrangimento e humilhação. • Linguagem corporal negativa, gestos ameaçadores. • Pichação ou bilhetes com mensagens ofensivas. • Cyberbullying (feito em páginas na web, e-mail, mensagens de texto e assim por diante). (BEANE, 2009 p. 19-22, grifo nosso).
Sabe-se que os personagens do bullying são três, mas para Cleo Fante citado por Calhau (2009) existe uma quarta personagem nesse cenário que é a vítima-agressora.
O texto a seguir define com clareza a ação de cada um dos personagens desse fenômeno,
o agressor é aquele que vitimiza os mais fracos. (...) Frequentemente é membro de família desestruturada, em que a pouco ou nenhum relacionamento afetivo. (...) As vítimas são eleitas. Elas não precisam fazer nada para serem escolhidas. Os agressores simplesmente as elegem no meio de um grupo para serem alvos de seus ataques. (...) Os espectadores passivos ou testemunhas silenciosas. Esse grupo é formado por pessoas que ao mesmo tempo são de certa forma, vítimas e testemunhas dos fatos. A grande maioria não concorda com as agressões, mas preferem ficar em silêncio, pois tem medo que os agressores, em caso de saída em defesa das vítimas, as “eleja” também para esses ataques. (...) Por fim, há o grupo das vítimas agressoras. São pessoas que foram vitimizadas pelo bullying e passaram a ser agressoras de outras pessoas. Aprenderam o comportamento do bullying e, por algum motivo (ex: deixarem de serem alvos) passaram a reproduzir o comportamento e atacar outras pessoas. (CALHAU, 2009, p. 8,11, grifo nosso)
Como podem ser observados, os danos causados pelos atores do bullying são desastrosos para todos os envolvidos, mas, em especial para as vítimas. Uma infinidade de traumas e enfermidades do cotidiano pode ser atribuída a essa violência silenciosa da qual criança, adolescente e adulto estão expostos a cada dia, como pode ser observado no estudo de casos e atendimentos clínicos, que diagnosticaram que
o estresse é responsável por cerca de 80% das doenças da atualidade pelo rebaixamento da resistência imunológica e sintomas psicossomáticos diversificados, como dores de cabeça, tontura, náusea, ânsia e vômito, dor no estômago, diarréia, enurese, sudorese, febre, taquicardia, tensão, dores musculares, excesso de sono ou insônia, pesadelos, perdas ou aumento de apetite, dores generalizadas, dentre outras. Podem surgir doenças de causas psicossomáticas como gastrite, úlcera, colite, bulimia, anorexia, herpes, rinite, alergia, problemas respiratórios, obesidade e comprometimento de órgãos e sistemas.
Nos casos mais graves, as vítimas podem até cometer suicídio ou atacar outras pessoas de forma violenta. (CALHAU, 2009, p. 13)
Infelizmente, a sociedade moderna não tem tempo para pensar no bem estar do outro, não é difícil constatar essa onda de extremo desamor ao próximo.
As pessoas não se respeitam, nem respeitam regras e limites, tudo é possível e nada, ou quase nada, é censurado ou proibido para aquele que detém a força e o poder.
Sabe-se que as instituições de ensino, ao passar dos tempos foram alvos de diversas reformas com o intuito de se adequar as novas tendências educacionais. Sabe-se também que a escola passou por uma reforma estrutural administrativa para se adequar a essas tendências.
É possível que essas mudanças tenham colaborado, em parte, com esse ciclo de violência nas escolas, porém, expor as instituições educacionais como berço desse fenômeno é excluir desse contexto outros seguimentos da sociedade. É omitir os fatos. A família, o governo, as instituições a fins, a igreja e o próprio meio de comunicação fazem parte desse contexto quando, colaboram ou se esquivam da responsabilidade de serem bons exemplos para as crianças, os adolescentes e para os jovens. Até onde se conhece, nas escolas não se lecionam aulas de corrupção, violência, discriminação, nem tão pouco são admissíveis, por parte de todos que a compõem, atitudes de agressividade, humilhação, ofensa e tantas outras coisas ruins que se pode observar no cotidiano. Todavia, esses temas transversais fazem parte de discussões em sala de aula, por estarem tão enraizados na sociedade. Sobre essa discussão, Calhau (2009) afirma que:
Vivemos numa sociedade extremamente individualista. O capitalismo naufraga ao transformar as pessoas em objeto e os valores ficam em segundo plano na vida das pessoas, que querem cada vez mais possuir bens. A falta de religião e da ética é apontada como causadora dessa situação.
Os especialistas em bullying Cleo Fante e José Pedra lembram que no Brasil, por ser ainda pouco difundido entre os profissionais da área de segurança pública, o tema ainda não é levado em consideração nas investigações que envolvem violência e criminalidade entre jovens. Entretanto, inúmeros assassinatos, suicídios e lesões corporais graves já ocorreram dentro e fora das escolas fazendo muitas vítimas. Devemos lembrar ainda que o bullying acontece num duplo movimento: de dentro para fora da escola e vice-versa. (CALHAU, 2009, na Apresentação da 1ª edição de seu livro BULLYING o que você precisa saber).
Observa-se que esse ato de “violência silenciosa”, são valores adquiridos de uma sociedade desumana, onde a ética e a moral se tornaram assuntos insignificantes para a formação do indivíduo. Conforme a declaração de Calhau (2009), “o ser humano, para muitos, deixou de ser o próximo e passou a ser apenas um meio para que possa alcançar ‘felicidade’, que é apenas juntar dinheiro e adquirir bens”. Ele ainda cita Erich Fromm que afirma em seu livro “Ter ou ser?” (1987) que:
A alternativa ter contra ser não fala imediatamente ao senso comum. Ao que tudo indica, ter é uma função normal de nossa vida: a fim de viver nós devemos ter coisas. Além do mais, devemos ter coisas a fim de desfrutá-la. Numa cultura em que a meta suprema é ter – e ter cada vez mais – e na qual se pode falar de alguém como “valendo um milhão de dólares”, como poderá haver alternativa entre ter e ser? Pelo contrário, tem-se a impressão de que a própria essência de ser é ter: de que se alguém nada tem, não é. (CALHAU, 2009, p. 4),
Para que se tome ciência da problemática do desrespeito para com o outro e se observe que o bullying encontra-se mais enraizados na sociedade do que se imagina, Marie-Nathalie e Maureen (2004) relatam a história da rã, traduzido e adaptado de Gougaud, 2000. Que servirá como instrumento de avaliação pessoal.
Numa manhã ensolarada, uma grande rã decidiu engolir toda a água que havia na Terra. Sentou-se orgulhosa, saciada. Parecia uma montanha de água, e a pele azul e verde ficava quase que transparente sob a tensão. De tão pesada, não conseguia se mexer. Por isso, ficou apenas ali sentada, olhando para todos os animais e os seres humanos reunidos à sua frente. ‘ O que vamos fazer?!’, gritaram todos os seres vivos. ‘ Vamos todos morrer se ela não devolver os rios, os córregos e os oceanos. ’ Passaram três dias rezando e implorando para que a rã soltasse as águas. Mas a rã nem se mexia. As crianças choravam, os idosos sofriam, e, no horizonte, a areia do deserto avançava lentamente. Era preciso fazer alguma coisa. (BEAUDOIN e TAYLON, 2004, p. 21)
As autoras questionam: Qual seria a sua atitude? O que você faria para que a rã abrisse a boca e libertasse as águas? (...) Você consegue imaginar mais de uma solução? (...). Pelos moldes que regem a sociedade atual, não é difícil imaginar que a solução, imediatista, estaria no sacrifício da rã para saciar a necessidade de um todo. Beaudoin e Taylon, (2004, p. 22) afirmam que “As culturas podem influenciar as opções que estão disponíveis, e também impossibilitar outras opções”, complementando que o indivíduo “simplesmente não consegue imaginar uma solução que esteja fora dos discursos sociais que influenciam sua vida, (...)”.
Verifica-se então que, a atitude a ser tomada fica atrelada basicamente naquilo que a mente codificou como certo ou errado, dentro do um contexto social. Segundo as autoras,
A reação comum a essa história envolve agressão e ação individual. A atitude da maioria das pessoas – até mesmo de profissionais da área da saúde mental e de educadores participantes de um workshop para a prevenção do bullying – seria empurrar a rã, bater ou dar um tiro nela. Isso simplesmente demonstra que apesar de nossas melhores intenções e de nossa postura mais sincera contra a agressão, somos todos socializados a pensar na agressão como uma solução. Pessoas de diferentes culturas sugerem reações diversas. Por exemplo, indivíduos provenientes das Ilhas do Pacífico Sul, onde essa história é contada, propuseram um final notável:
Em busca de uma solução, os animais e os seres humanos realizaram uma convenção. Um deles finalmente propôs organizar uma festa, na qual cada um poderia tentar fazer a rã dar risada. E foi assim que, um por um, cada um deles experimentou apresentar sua careta mais idiota, sua dança mais engraçada e seus saltos mais criativos. A rã, ainda que obviamente interessada, simplesmente não se mexia. Por fim, uma cobrinha, que até o momento mantivera-se bastante quieta nessa jornada, começou a se revirar de um lado para o outro, como se um ser imaginário estivesse fazendo-lhe cócegas. Primeiro a rã soluçou, tentou recuperar a compostura, mas, incapaz de controlar sua risadinha, explodiu em uma gargalhada que acabou expulsando todas as águas de dentro de sua boca gigante, reabastecendo a Terra e os seres vivos com seus oceanos, córrego s e rios. (BEAUDOIN e TAYLON, 2004, p. 22).
Portanto, nesse contexto, Miller (2006, p. 81) enfatiza que “Uma das tarefas fundamentais da educação é a de desenvolver dentro da escola uma cultura de respeito, a única maneira de manter à distância entre a cultura da violência, uma vez que ela está sempre pronta a dominar”, e despertar as autoridades exigindo delas a criação de políticas capazes de prevenir o bullying e/ou minimizarem os efeitos individuais e coletivos desse fenômeno.
Enquanto prevalecer nessa sociedade o poder opressor do mais forte sobre o mais fraco, enquanto o “Ter” for mais forte que o “Ser”. Enquanto os valores morais não forem resgatados. Enquanto o “mundo for dos espertos” e as pessoas não se derem conta que o futuro é tudo que se planta hoje, lamentavelmente se estará caminhando para o fim dos tempos.
5 Conclusão
Após a pesquisa sobre a evolução da educação e seus encalços pode-se concluir que na história dessa construção, a educação sempre esteve submissa aos padrões dos interesses daqueles que a detinham ou a detem.
A divergência entre as estruturas de gerenciamento das escolas públicas e privadas são relevantes, parece que não se fala da mesma coisa, nem se deseja os mesmos fins. São dois mundos diferentes e complexos que estão sobordinados a uma única Lei vigente.
Já em relação ao fenômeno Bullying pode-se concluir que enquanto não houver uma educação voltada para a moral e para a ética esses atos de violência infelizmente farão parte do cotidiano de crianças, adolescentes e jovens. De que adianta as escolas trabalharem os valores se no convívio familiar e social muitas vezes esses valores não são respeitados? Como falar em igualdades quando o que mais se vê e a desigualdade? Não adianta ensinar o que não se vive na prática.
Piaget em seu estudo sobre o jugamento moral da criança (1930) enfatiza que “a moral vem do respeito que adquirimos às regras, mas este começa no respeito que temos às pessoas que nos impõem tais regras”. Primeiro respeitamos pessoas, depois regras. “Há, no entanto dois tipos de respeito por pessoas: o unilateral e o mútuo”.
Outrossim, para que o Bullying seja instinto, a humanidade precisará rever novos conceitos ou retomar os já existentes partindo do princípio que se deve amar ao próximo como a si mesmo.
SCHOOL VERSUS CLIENT COMPANY: THE NEW MODEL MANAGEMENT AS A PRECURSOR TO BULLYING
ABSTRACT
The article reports on the issue of bullying in educational institutions of the country, a sign of silent violence as a trigger, the capitalist system of government, which influences (even indirectly) in the operational structure of the school shows the way than to teach and how to teach and thus interferes with the education of students. The research follows on the directions of Brazilian education, paralleling the interests of the eminent political power and the dominant social class, from the colonial period until today, focusing mainly on training students in class in order to prove that educational reform based on systems of government and the prevailing economic interests, not necessarily contributed to the education quality, which culminated in quantitative but the sad reality of "Bullying Phenomenon", at the schools. The work is not intended to reveal more concise statistical data, for a detailed study of the problem, but makes use of them, only to situate the growing seriousness of the acts of "silent violence", focusing on a more conventional reasons by which this phenomenon is and remains present in schools causing concern to all segments of society. Finally the article points out the emergent need to rescue the ethical and social values in school and family aim, to exterminate or at least minimize this phenomenon, before it's too late
KEYWORDS: Education. System of Government. Bullying.
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*Graduada em Administração de Empresas pela Faculdade de Ciências Aplicadas de Limoeiro - FACAL e em Educação Artística pela Universidade Federal de Pernambuco- UFPE; Pós–graduada em Gestão e Planejamento Escolar pela Faculdade Osman da Costa Lins - FACOL
** Professor orientador- Mestre em Comunicação pela UFPE, Professor da Pós-Graduação da FACOL
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